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PEQUENA HISTÓRIA DE MOGI DAS CRUZES

          A palavra Mogi ou “Boigy”, como antigamente se denominava, quer dizer em linguagem indígena: rio das cobras. Pelo rio Tiete aconteciam os primeiros contatos entre os colonizadores portugueses e os habitantes locais. Aproximações sempre dolorosas, tanto para os europeus --- gananciosos por terra --- como para os indígenas, estes primeiros brasileiros.
          A vila de Sant´Ana de Mogi das Cruzes nasceu em 1601. Foi das primeiras localidades do interior paulista. Em final do século XVI, o governador geral do Brasil, Dom Francisco de Souza, incentivou a abertura de uma estrada pelo sertão para facilitar as expedições paulistas à busca de riquezas. Nomeado para este feito foi Gaspar Vaz.
          Este foi o fundador da povoação. E os motivos, apresentados por ele no Foral --- verdadeira certidão de nascimento da cidade --- foram: a necessidade de possuir terras e a busca de uma melhoria de vida para os seus. Outros motivos também influíram: o sitio funcionaria como um entreposto de passagem para os desbravadores. E também para outros, principalmente judeus e cristãos novos (Francisco Vaz Coelho), como uma oportunidade de escapar as criticas religiosas de que eram vítimas em São Paulo.
          Estes bandeirantes --- homens a busca de escravização do gentio e a cata do ouro --- não eram, como se imagina, verdadeiros “heróis” ou adornados conquistadores com suas roupas parecendo nobres europeus. Na sua maioria mamelucos, mistura de brancos com indígenas, falavam uma mistura de palavras das duas culturas. Não conheciam as botas, vestiam-se de roupas de rústico algodão e, sem dúvida, eram destruidores de comunidades locais.
          Durantes os dois primeiros séculos e meio de sua existência, do XVII a metade dos XIX, a cidade foi descrita por alguns viajantes como acanhada e triste. Era realmente pobre. Em torno de três igrejas --- a atual Matriz, o complexo do Carmo e a de São Benedito --- existiam por volta de 200 casas muito rústicas, construídas de poucos cômodos de pau a pique, telhados de palha ou telhas. Ruas estreitas por onde passavam tropas muares, em seu precário comércio de deslocação a outros sítios. E agricultura de subsistência.
          A primeira modernização da cidade aconteceu em 1876 com a chegada da estrada de ferro Central do Brasil. Isto possibilitou a vinda de imigrantes --- libaneses, italianos, espanhóis --- que incrementaram o comércio local. Mais tarde, a partir de 1919, com japoneses, criou-se um dinâmico centro agricultor hortigranjeiro. Estas movimentações possibilitaram um deslocamento do eixo urbano para um novo pólo social. É o atual centro velho do comércio em torno da praça Oswaldo Cruz.
          Com a vinda da siderurgia, Mineração do Brasil, ao final da II Guerra Mundial, aconteceu uma segunda modernização. Comércio de produtos trazidos da capital, serviços urbanos (escolas, profissionais liberais, artesãos), poucas manufaturas, e, principalmente a existência do chamado “Cinturão Verde”: a agricultura minifundiária dos japoneses.
          Nos anos 60 para os 70, outro impacto social. Foi a chegada das universidades (Braz Cubas e Universidade de Mogi das Cruzes). A vinda dos estudantes modificou hábitos tradicionais e comunitários, incrementando uma mentalidade cosmopolitana: relações individualizadas, mais laicas e menos religiosas, fim do poder político de famílias tradicionais. Ao mesmo tempo, principalmente, na existência da ditadura militar, a localidade solidificou-se em monopólios econômicos --- transporte, meios de comunicação, fortes escolas --- que controlaram a prefeitura. E, evidentemente, acentuando desigualdades sociais.
          Ao final do século XX, na chegada do shopping, e na sua quarta modernização, Mogi das Cruzes desemboca definitivamente no acelerado. O centro urbano desloca-se, outra vez, para região do novo empreendimento. Novos prédios, existência de canais de televisão, proliferação de médias indústrias, agricultura de exportação compõem uma sofisticada rede de relações sociais. Assim surgem novos hábitos de comportamento e mando político. Maior consumo, visibilidade social, maior poder publicitário, existência de condomínios, exclusão social passam a ser a nova identidade, ou identidades, da cidade.
Mogi das Cruzes, hoje, é um retrato de contrastes do próprio Brasil.

MÁRIO SÉRGIO DE MORAES
Doutor pela Universidade de São Paulo, historiador, professor de Cultura Brasileira

 
FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

A Festa do Divino é uma festa da Igreja Católica em que se celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e a Virgem Maria, reunidos no cenáculo (local da última ceia), marcando o nascimento da Igreja. É a festa de Pentecostes, que quer dizer qüinquagésimo dia depois da Páscoa.
As festividades começavam numa quinta-feira, quando era comemorada a Festa da Ascensão do Senhor, atualmente transferida para o domingo. Essa fase, que chamamos de preparatória, dura dez dias. Pela liturgia da Igreja, a festa propriamente dita é só no Domingo de Pentecostes.

A ORIGEM DA FESTA

O culto do Espírito Santo, de acordo com o historiador português Moisés do Espírito Santo, tem origem na Antigüidade. Entre os israelitas, a Festa de Pentecostes era celebrada cinqüenta dias depois da Páscoa, sendo uma das quatro festas importantes do calendário judaico: Páscoa, Omar, Pentecostes e Colheitas.
Entre os hebreus, o termo shabüoth faz referência à festa que começa cinqüenta dias depois da Páscoa e marca o fim da colheita do trigo.
Já o culto ao Espírito Santo, sob a forma de festividade, no sentido que iria adquirir mais tarde, se cristaliza no início da Baixa Idade Média, na Itália, com um contemporâneo de São Francisco de Assis, o abade Joachim de Fiori (morto em 1202), que ensinava que a última fase da história seria a do Espírito Santo. Suas idéias chegaram à Alemanha e espalharam-se pela Europa.
Em Portugal, no séc. XIV, a festa do Divino já se encontrava incorporada à Igreja. A responsável por essa institucionalização da festa em solo português foi a rainha D. Isabel, esposa do Rei D. Diniz (1.279 - 1.325), canonizada como Santa Isabel de Portugal, que mandou construir a Igreja do Espírito Santo, em Alenquer. Em solo português, ela seria fortemente marcada por influências de tradições judaicas, muitas das quais chegaram até nós.
Com o início da colonização, ela foi introduzida no Brasil, sempre com caráter popular.

A FESTA DO DIVINO EM MOGI DAS CRUZES

Em 1990, o historiador Jurandir Ferraz de Campos encontrou uma referência a uma festa do Divino, acontecida em Jundiaí. Trata-se de uma carta do capelão João de Morais Navarro, ao Exmo. Sr. Gal. Rodrigues Cezar de Menezes, então governador da Capitania de São Paulo, datada de 19 de maio de 1723.
Constatou-se a existência de registros da realização de Festas do Divino no interior de São Paulo, desde o início do século XVIII. Isso, segundo Campos, reforça a conclusão de que, sendo a vila de Mogi muito mais antiga do que a de Jundiaí, a Festa do Divino já era comemorada popularmente aqui pelo menos desde o final do século XVII. É, portanto, uma das mais antigas do Brasil, com mais de trezentos anos de fé e tradição.

SÍMBOLOS

POMBA: Representação do Divino Espírito Santo, manifesto no batismo de Jesus Cristo.
BANDEIRAS: Símbolo sagrado que representa o Espírito Santo para seus devotos. Sempre de cor vermelha e com um desenho de pomba branca no centro.
No mastro dos festeiros, o Divino apresenta-se sem ornatos, enquanto, na dos devotos, ele é todo enfeitado com flores em arcos. Na sua base, são atadas fitas coloridas de tamanhos diferentes, como ex-votos de graças recebidas.
MASTRO: Responsabilidade do capitão da festa, que providencia também a nova bandeira retangular que o mastro ostenta.
CORES: A bandeira tem a cor vermelha, que simboliza o fogo, alusivo à forma pela qual o Espírito.
Cada um dos SETE DONS do Divino tem sua cor característica: azul a sabedoria, prata o entendimento, verde o conselho, vermelho a fortaleza, amarelo a ciência, azul escuro a piedade e o roxo o temor de Deus.
COROA: Símbolo da importância e responsabilidade carregadas pelo festeiro, que antigamente ostentava o título de Imperador do Divino.
IMPÉRIO: Significa o altar do Divino que era montado, ou na casa do Imperador, ou numa tenda armada na praça da Matriz. Em Mogi, o altar é montado e ornamentado em uma cabana especialmente levantada para esse fim, na Praça da Catedral.
SUBIMPÉRIO: Antigamente, eram os altares montados pelos devotos em casas mais afastadas do centro. Nos últimos anos, eles são montados principalmente nas escolas.

PERSONAGENS

FESTEIROS: O festeiro, também chamado de imperador do Divino, é a figura central nos rituais e organização da festa. Além das tarefas de angariar recursos e de fazer o controle administrativo, os festeiros devem percorrer os subimpérios fazendo um trabalho de divulgação da festa.
CAPITÃES-DO-MASTRO: O casal de capitães-do-mastro é o principal colaborador dos festeiros. Eles são indicados pelos novos festeiros, escolhidos dentro de seu círculo de amizades ou dentre seus familiares. Sua função ritualística mais importante é a de guardar e preparar um mastro para ser erguido à frente da matriz na véspera do Domingo de Pentecostes.
IMPERADOR: A figura do Menino Imperador do Divino relembra o culto popular da Festa de Coroação do Imperador do Divino Espírito Santo, iniciado em Portugal pelo rei D. Diniz e pela rainha Isabel no século XIV.
REZADEIRAS: A partir do início do ano, as equipes de rezadeiras começam a sua peregrinação pelas casas de centenas de devotos, onde acontecem as rezas comunitárias.
DOCEIRAS: Duas a três semanas antes da festa, tem início o trabalho das chamadas “abelhinhas do Divino”. São dezenas e dezenas de devotas que, diariamente, se dedicam ao preparo dos doces tradicionais da festa como: doces de abóbora, laranja, mamão, cidra e batata-doce.
LANTERNEIROS: São devotos do Divino que mantêm a secular tradição de transportar as rústicas lanternas nas alvoradas e passeatas noturnas, relembrando um costume dos tempos em que não havia luz elétrica na cidade.
BANDEIREIRO: É um elegante cavaleiro que carrega a bandeira do Divino bem enfeitado dentro das tradições da festa, com flores e fitas nas cores branca e vermelha. Antigamente, ele era quem comandava as folias pelas roças afora, na coleta de esmolas. Hoje, sua função é abrir o cortejo da entrada dos palmitos.

Texto extraído do site: www.festadodivino.org.br

IMIGRAÇÃO JAPONESA

1. OS PIONEIROS

No dia 18 de junho de 1908, através do navio Kasato-Maru, chegaram os primeiros 800 imigrantes japoneses a Santos.
Nesta época, o Japão passava por sérias dificuldades econômicas devido ao desemprego e a guerra russo-japonesa, aumentando o sofrimento dos pobres no país.   De outro lado, no Brasil, a economia do país sustentava-se no café, conhecido como “Ouro Negro”.
Assim sendo, os dois países assinaram acordos de imigração, deslocando a mão de obra do Oriente para cá através de companhias de navegação, que faziam o transporte de trabalhadores para a terra do café.
Os primeiros imigrantes foram levados ao Oeste Paulista para trabalhar sob o regime de contrato agrícola. Devido a dificuldades como péssima remuneração, doenças tropicais e isolamento no campo, muitos trabalhadores preferiam fugir.
Aconselhado pelo médico do consulado japonês, Dr. Sentaro TakaoKa, alguns orientais souberam que próximo a capital de São Paulo havia uma região de clima mais ameno, evitando portanto as doenças. Assim surgiram os pais-fundadores da colônia japonesa em Mogi das Cruzes.
O primeiro a se estabelecer na região de Cocuera foi a família de Shiguetoshi Suzuki e sua esposa Feijie Suzuki.

2. TRÊS FASES DA IMIGRAÇÃO JAPONESA EM MOGI DAS CRUZES

Divide-se a imigração japonesa em Mogi das Cruzes em três fases: a primeira, de 1919 ao final da II Guerra Mundial, 1945, marcada pela passagem de arrendatários a proprietários. A segunda que vai até o final dos anos 80, quando alguns tornaram-se de proprietários a patrões. E finalmente, a época da crise da pequena propriedade com a existência dos dekasseguis que perdura até os dias atuais.

3. O DIFÍCIL PERÍODO DE PERSEGUIÇÃO DADO PELA II GUERRA MUNDIAL

Durante os anos 30 a política governamental brasileira foi marcada por uma crescente intolerância contra os imigrantes, particularmente os japoneses.
Com a II Grande Guerra Mundial e a entrada do Brasil ao lado dos Aliados, as perseguições aumentaram, proibindo a circulação de jornais, ensino de línguas estrangeiras, além de confisco de rádios e caminhões da colônia.
De outro lado, com a vitória dos Aliados, surgiram divisões dentro da comunidade entre Derrotistas (os que acreditaram na derrota do Japão) versus os Vitoristas (aqueles que afirmaram que era impossível a derrota do militarismo nipônico). O desentendimento entre eles foi muito grande e repercutiu em diferentes pontos de encontros: escolas, clubes de lazer, times esportivos, festas, etc.
Ao contrário de outras regiões, marcadas por assassinatos feitos pela Shindo Renmei, ao lado dos Vitoristas, a influência desta organização não foi muito grande pelo seguinte motivo: os agricultores de Mogi das Cruzes estavam em franca expansão de seus negócios e não desejavam paralisar a sua produção no boicote econômico aos Aliados. Já tinham consolidado a sua marca de proprietários e não queriam perder o já conquistado. Com isto termina a primeira fase destes pioneiros.

3. A PROSPERIDADE: DE PROPRIETÁRIOS A PATRÕES

Com os anos do desenvolvimentismo econômico do Brasil, desde os anos 50 até os anos 80, a comunidade começa a se integrar na sociedade local com a vinda de inúmeros filhos para as escolas urbanas, além da eleição de vereadores apoiados pela colônia e a chegada de indústrias japonesas.
Em 1949, a família Abe, após 20 anos de sua chegada, já era considerado na região um grande proprietário com 363 hectares. Esta progressão, do arrendatário ao fazendeiro, pode ser explicada, não somente pelo baixo custo da terra nesta região, mas principalmente pelas inovações feitas por este pioneiro.
O desenvolvimento feito pelos imigrantes japoneses em Mogi das Cruzes, a partir dos anos 50, não se deu apenas no setor agrícola ou no espaço da avicultura. Atingiu também o urbano, principalmente nos serviços, comércio e indústria.
Porém nos anos 80, a economia brasileira foi caracterizada por uma forte espiral inflacionária, recessão, desemprego e diversos choques econômicos que não tiveram sucesso em estabilizar o país. Neste instante os agricultores não tiveram como planejar as suas atividades, afogadas em crescentes dividas aos bancos dados por altos juros. De outro lado, com o corte dos subsídios governamentais e com a desapropriação de inúmeras de suas terras por barragens construídas na região do Alto Tiete entram em crise.

4. OS ÚLTIMOS TEMPOS: A CRISE DA PEQUENA PROPRIEDADE

A ultima fase, é marcada pela crise na pequena propriedade e com a ida de descendentes dos pioneiros para o Japão, conhecidos por dekasseguis.
Vários foram as causas desta crise: explosão inflacionária, fim dos subsídios agrícolas, juros altos cobrados pelos bancos, aumento dos impostos, saída de filhos e netos para as cidades na procura de faculdades e outras profissões liberais, etc.
Isto ocasionou um movimento “às avessas” do percorrido pelos pioneiros imigrantes, isto é, atualmente muitos descendentes estão tentando o retorno ao Japão por melhores condições de vida.
No entanto, apesar da crise reinante, a pequena propriedade continua resistindo aos problemas da economia brasileira. Muitos agricultores, pouco a pouco, estão mudando sua atividade no reaparelhamento técnico de suas lavouras.

5. CONCLUSÃO

Depois de 100 anos da imigração japonesa podemos apontar como legado de todo este movimento social os seguintes cinco dados: criação de um modelo de desenvolvimento baseado na pequena propriedade, utilizando mão de obra familiar, voltado para o abastecimento do mercado interno.
De outro lado, o fortalecimento de um espírito associativista na criação de cooperativas e escolas. Este esforço fez incrementar o desenvolvimento de experiências agrícolas notáveis para o desenvolvimento agrícola do país.
A cidade de Mogi das cruzes foi e é um verdadeiro laboratório de experiências genéticas. Nomes como os agrônomos Hiroshi Ikuta, no setor de legumes, e Kaoru Hiramatsu, no setor de arvores frutíferas, Benjiro Togue (aspargos), famílias Shigueno, Sakai e Nagao (aves), família Abe (irrigação), Gento Kobayashi (caqui) e tantos outros!
Esta fermentação econômica, associativa e de idéias fez com que a colônia se entrelaçasse com a sociedade mogiana. Pouco a pouco seus membros foram se inserindo no viver urbano e misturando-se com os diversos grupos existentes, formando camadas --- feirantes, operários, profissionais liberais, líderes de empresas, funcionários públicos --- que nas últimas décadas estão contribuindo nas suas mesclas de culturas para o progresso do país.

MÁRIO SÉRGIO DE MORAES

Doutor pela Universidade de São Paulo, historiador, professor de Cultura Brasileira, autor do livro “História da Imigração Japonesa em Mogi das Cruzes”.